Lilia Schwarcz analisa o caráter antagônico das redes sociais

Publicado em 15 de outubro de 2020 Publicado por Redação BRZ Content

Em entrevista exclusiva à BRZ Content, a historiadora e doutora em antropologia social pela USP Lilia Schwarcz analisou o comportamento da sociedade nas redes sociais, alertou para o agravamento da polarização e contou como gerencia seus canais na internet.

Em entrevista à BRZ Content, Lilia Schwarcz defende a ideia de construirmos um ambiente de diálogos nas redes sociais

Autora de muitos livros, entre os quais “O espetáculo das raças”; “Brasil uma biografia” e “Sobre o autoritarismo brasileiro”; Lilia Schwarcz tem também um canal no Youtube e defende a ideia de que os intelectuais devem se adaptar à linguagem do mundo digital, assumindo um compromisso firme de construir diálogos construtivos entre a academia e a sociedade.

Banida do Facebook após publicar imagens eróticas da exposição “Histórias da Sexualidade”, realizada no Masp, em 2017, ela começou a usar o Instagram. Ainda no início do ano seguinte, seus posts com obras de artes de artistas célebres não tinham mais que 15 curtidas. Mas quando decidiu sair em defesa da democracia, postando vídeos de manifestações contra a eleição de Jair Bolsonaro, atraiu milhares de seguidores engajados. Hoje, ela reúne em seu perfil 260 mil pessoas, todas atraídas organicamente.

BRZ Content: Lilia, como você tem percebido o comportamento da sociedade nas redes sociais? 

Lilia Schwarcz: Até pouco tempo, eu não era uma pessoa das redes sociais. Quem me apresentou esse universo foi o Adriano Pedrosa, por causa das exposições do Masp, mas eu ainda fazia ali um trabalho discreto.

Quando o presidente Jair Bolsonaro assumiu, eu comecei a escrever. Aconteceu algo muito contraintuitivo, porque as respostas das pessoas se tornaram um desafio para que eu escrevesse mais.

Eu percebi um fenômeno muito interessante no Instagram, porque tenho um grupo fiel –  fiel que eu digo não somente de pessoas que me apoiam, mas que me seguem, fazem sugestões e discutem comigo. Então, comecei a escrever cada vez mais.

Eu percebi este fenômeno quando lancei “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Assinei 1.200 livros na pré-venda, enquanto a média das editoras costumava ser de 300. Eu vi que tinha algo novo acontecendo aí.

Se a internet tem um lado muito raivoso, de intolerância, ela pode também ter um lado muito democrático mesmo, de gente que quer debater. Você pode qualificar o debate.

Eu tentei transformar o meu Instagram em um ambiente de diálogo: são pessoas que vêm em busca de conteúdo, são pessoas participativas, o nível dos comentários é muito alto. São extremamente carinhosas, mas também muito críticas.

Eu acho que a sociedade mudou e os veículos de comunicação mudaram. Não me parece que a imprensa publicada continue sendo o único meio de divulgação importante.

Os intelectuais, os críticos e as pessoas que querem, de fato, entrar neste debate de forma democrática, vão ter que aprender a lidar com esta nova linguagem. Na internet, você tem que escrever muito menos do que os intelectuais escrevem.

Depois, precisamos ser generosos. Temos que nos adequar. E não é uma questão de simplificar, porque as pessoas que me seguem não são simplistas, mas precisamos aprender a ser mais diretos.

Como todo grande fenômeno na história, trata-se de um fenômeno também ambíguo: produz mais ódio e produz também uma informação mais democrática.

As redes sociais abriram mais espaço porque as pessoas podem falar com você de forma mais horizontal. Você tem mais liberdade.

Eu faço um post, mas eu sempre volto para checar, para verificar se eu não dei alguma informação errada e vou aprendendo inclusive com meus seguidores, que me apontam sobre o que estou falando. A gente se retroalimenta.

BRZ Content: Como você explica a polarização nas redes sociais? Quando isso começou e por que isso tem se agravado a cada dia? 

Lilia Schwarcz: Estamos vivendo um momento, desde 2018, de surgimento e sucesso dos grupos mais à direita, o que chamo de populismo tecnocrata. São, em geral, homens muito autoritários, que se utilizam muito da plataforma digital, mas que utilizam esta plataforma para construir um mundo dividido.

Um bom conteúdo muda tudo

Este fenômeno ficou muito claro com a eleição do Viktor Órban na Hungria e de Donald Trump nos EUA, que apostam na polarização e também nas fake news. Eles acreditam nesta ideia de que o outro não é um adversário político, mas sim um inimigo.

Na democracia, é importante você ter um bom adversário político, porque ele vai te fazer pensar melhor. O inimigo não, porque frente ao inimigo eu preciso massacrá-lo ou matá-lo. Esta lógica vem muito dos governos que são contra a academia, são contra as instituições democráticas e contra o jornalismo.

Eles não querem dialogar com as notícias ou com o saber, eles são o saber e o conteúdo. Para ganhar, eles precisam construir esta realidade muito polarizada. É claro que sempre existiu polarização, mas não desta maneira e neste nível que estamos vivendo.

Neste sentido, as redes vêm sendo um ambiente de construção de afetos divididos e isso é muito grave. Por isso, acredito que é preciso que pessoas com outros projetos ocupem as redes, para mostrar como as redes podem ser espaço para troca de informação qualificada, documentada.

Parece-me muito grave derrubar o jornalismo, que nós tenhamos como projeto acabar com a ciência e, por fim, com as instituições democráticas que são o termômetro da República. Então, acho que este fenômeno se agravou muito em 2018.

BRZ Content: Você acha que isso tudo tem minado também a confiança das pessoas nas notícias e na imprensa, de um modo geral? 

Lilia Schwarcz: O terreno ficou profundamente minado, porque temos de um lado, um executivo que tenta a todo momento desfazer das notícias. Existem pessoas que não confiam mais na imprensa. De outro, pessoas que desconfiam demais das notícias veiculadas pela internet.

Por isso, digo que devo muito à universidade. A academia te ensina a pensar com as notícias. Nós sabemos que nunca adianta ficar com apenas uma fonte.

Você tem que ir a mais fontes e interseccionar essas fontes.  Estamos vivendo um momento muito difícil. As fake news são um fenômeno terrível. Liberdade de expressão não é direito para fazer fake news e invadir áreas de especialistas e achar que é uma fonte de produção de saber.

Não existe produção de saber sem pesquisa. Não existe produção de saber automática. É hora de nós voltarmos a prezar a boa informação.

Muitas vezes, quando me perguntam sobre um fato como, por exemplo, qual é a data da Revolução Francesa, eu digo: eu não tenho uma opinião, eu tenho uma informação.

Existem fatos dos quais não temos que duvidar. É fundamental saber distinguir o que é opinião do que é informação. É importante saber quando você pode emitir um juízo ou quando você está passando uma informação.

A imprensa brasileira tem um papel fundamental; ou seja, em tempos de crise, eu digo: “procure um poeta, um cientista e um bom jornalista”. É preciso distinguir o jornalista de opinião, que são os colunistas, dos jornalistas que cobrem o cotidiano.

É importante agora a imprensa ser transparente para reaver a confiança, mostrar suas fontes e mostrar de onde fala.

Eu sei que a imparcialidade absoluta não existe, mas o relato jornalístico, sério, transparente, democrático, pautado em informações é ainda fundamental para todos os países. Senão, vamos cair nesse populismo, nesses dirigentes populistas que acham que são mais que a imprensa, são mais que a ciência e mais que as instituições democráticas.

BRZ Content: Estar nas redes sociais, então, requer responsabilidade. O que você diria aos jovens que estão tão ativos nas redes hoje? 

Lilia Schwarcz: Este fenômeno das redes constroi uma sensação de popularidade, que é aquele negócio de ficar vendo quantas pessoas deram like para o seu post, quantas pessoas comentaram, se você lacrou ou não lacrou. Esta é uma realidade muito fugidia. Se um dia você lacrou, no outro dia você está esquecido na internet.

Os jovens não podem construir suas amizades e seus relacionamentos somente nesta base. Estes são fenômenos passageiros, e não é assim que construímos relações sólidas, pautadas no afeto, na confiança e na lealdade.

O que está acontecendo é que os jovens estão com sede de sucesso, de se tornarem celebridade e isso faz com que as pessoas sejam muito rápidas em suas avaliações.

O tempo da internet é um tempo muito rápido. Já o tempo do conhecimento, da informação, do amadurecimento e do aprendizado tem que ser um outro tempo. Não pode ser esse tempo rápido que você clica e detona o outro imediatamente. Precisamos dar tempo ao tempo.

Vou abrir um parêntese para algo que tenho dito muito. Desde o final da primeira Guerra Mundial e da Guerra Espanhola, nós colocamos a morte em um lugar muito separado da nossa realidade, empurramos a morte para os hospitais, para que ninguém a veja. Nós só falamos na morte de grandes celebridades, mas perdemos o tempo do ritual e de prezar os nossos mortos, que é exatamente o que está acontecendo agora na pandemia. No mundo todo, o tempo da internet é tão rápido que não temos tempo de fazer luto. Esta é uma metáfora que está sendo real agora. Como já dizia Platão, quem não cultua a morte, não cultua a vida.

O tempo do ritual de estudo, de aprofundamento, é um tempo muito diferente do tempo da internet. Então, o que eu diria para as pessoas, e para os jovens em especial, é para evitar entrar nessas vogas muito ligeiras, em que você adora uma pessoa ou detesta uma pessoa, tudo na mesma intensidade. Este comportamento não é bom porque não incorpora a reflexão. O tempo da reflexão é um tempo muito distinto da internet e é isso que a gente tem que se controlar. Precisamos nos permitir o pensar.

Toda vez que uma coisa mexe muito comigo, eu nunca respondo imediatamente; ou até respondo, mas não envio. Este é um bom procedimento porque depois a gente se arrepende. Não precisa responder imediatamente.

Nos fenômenos de cancelamento, de linchamento, a pessoa é tomada pela emoção e não tem tempo de analisar: “espera aí, sobre o quê estamos falando neste caso aqui?” “Quem é esta pessoa?” “O quê estou sendo incitada a fazer porque todo mundo está fazendo?”. “O quê, de fato, eu quero fazer?”. “Como, de fato, eu penso esta questão?”.

Nós não podemos perder a identidade. E isso é possível. No meu Instagram, eu faço isso. Eu respeito as pessoas. Elas me respeitam. Eu considero o que as pessoas estão falando.

BRZ Content – E por falar nisso, como chegou a 260 mil seguidores no Instagram e como você faz a gestão das suas redes sociais? 

Lilia Schwartz:  Entrei nas redes sociais no final de 2017, pelo Facebook. Foi na época da exposição “Histórias da sexualidade” . A Adriana Varejão, uma das expositoras da mostra, teve problema e fui explicar quais eram suas fontes nas redes. Publiquei as sungas, com posições eróticas e o Facebook me cortou. Então, passei a usar o Instagram, publicando telas e acolhendo a experiência das pessoas.

Mas entrei pra valer em 2018; sobretudo no contexto da eleição de Jair Bolsonaro, com as postagens do #elenão. O engajamento aumentou muito quando falei do ministro de Ciência Tecnologia, Marcos Pontes e também de outros ministros.

Eu me recordo também de uma outra situação que trouxe muitos seguidores, que envolvia a então diretora da Vogue, Donata Meirelles. Neste post, eu não citei nomes, apenas perguntava sobre nós. “O que nós estamos fazendo?” A questão ali não era pessoal ou normativa. Dizia respeito ao grau de racismo que nós brasileiros praticamos.

Por fim, a repercussão deste caso acabou culminando na saída de Donata da revista .

Quando estive no Roda Viva, também tive um crescimento enorme no número de seguidores.

Eu não tenho ninguém que me ajuda nas redes. Eu mesma cuido do meu Instagram, seleciono as imagens e procuro responder aos meus seguidores todos os dias.

O que eu acabei percebendo é que é possível construir relações de diálogos pelas redes sociais. Tenho pessoas que só conheço pelo Instagram, reconheço as pessoas que me seguem, penso junto com elas. Nestas interações, volto a pesquisar sobre as coisas que escrevi e me dou o tempo de refletir sobre aquilo.

A ideia de entrevistar a antropóloga Lilia Schwarcz surgiu durante sua entrevista ao Roda Viva, no dia 7 de setembro de 2020. Neste dia, ela falou sobre como nós brasileiros temos sido permissivos com o autoritarismo do governo atual, repetindo histórias do período colonial; entre elas, o racismo. Na ocasião, Lilia também falou sobre o papel fundamental dos intelectuais na construção de diálogos no ambiente digital.

A BRZ Content tem consciência da importância deste papel, assume compromisso com conteúdos que divulga e defende que todas as pessoas que estão nas redes sociais sejam responsáveis por tudo o que publicam.

Antes de precisarmos de leis para controlar a incitação ao ódio, as inimizades e as violências de todos os gêneros no digital, podemos nós mesmos, – que somos conscientes desta realidade, – ajudar a educar as pessoas para se comportarem e se relacionarem de forma civilizada e democrática nas redes sociais (e não somente nelas).

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